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Jovem conta moedas para pagar curso profissionalizante

11/12/2017

Guilherme Walker, 22 anos, quita mensalidades de curso em escola de efeitos visuais com moedas e notas de R$ 2

 

Com a perícia de um cirurgião, Guilherme Walker, 22 anos, ajeita 60 trufas de chocolate em uma bolsa térmica. Depois, cruza os dedos para que a chuva e o sol intenso deem trégua enquanto ganha as ruas de Taguatinga e Águas Claras, onde há um ano vende doces em semáforos. Cada centavo recebido é guardado em sacolas plásticas para quitar as mensalidades dos cursos em que o rapaz está matriculado na expectativa de se tornar desenvolvedor de jogos eletrônicos.

 

Além de garantir o próprio sustento e o da mulher, Ana Laura de Melo, 21, com quem divide quitinete na Colônia Agrícola Samambaia, Guilherme trabalha para bancar sua formação. Ele está matriculado em quatro escolas. Uma delas, a Gracom, em Taguatinga. O lugar é um centro autorizado da Adobe – a maior produtora do mundo de softwares para o desenvolvimento de efeitos visuais. Lá, Guilherme aprende a editar vídeos, criar sites, manipular fotos e fazer desenhos digitais. Tijolos de um sonho que o jovem constrói bombom a bombom. O curso custa a Guilherme R$ 289,90 por mês. Ou 97 trufas.

 

Há oito meses, a cada dia 10, Guilherme surge com um saco plástico abarrotado de moedas e notas de R$ 2. Esse é o tesouro do estudante que projeta um dia viver do promissor mercado digital.

 

A especialização em efeitos visuais vai formar os alicerces da carreira que Guilherme projeta alavancar fora do Brasil. “Penso em morar no Canadá, Estados Unidos, Japão ou Coreia do Sul, onde há as melhores condições”, conta. Ana Laura embarca no sonho do companheiro. Estudante do quarto semestre de fisioterapia, ela pensa segui-lo em qualquer lugar do mundo. É a venda de bombons que banca também as mensalidades da faculdade e das aulas de inglês do casal.

A meta diária de Guilherme é vender todas as 60 trufas, 15 de cada sabor — morango, maracujá, brigadeiro e beijinho (coco) —, a R$ 3 a unidade, ou duas por R$ 5. As contas fecham no fim do mês somente se ele alcançar esse objetivo, em pelo menos cinco dias por semana. Para isso, é fundamental a ajuda dos céus.

 

Quando as vendas ficam aquém do plano durante a semana, o rapaz compensa o prejuízo aos sábados, domingos e feriados.

 

Guilherme e Ana Laura preparam os doces com receita ensinada pela mãe dele. Na infância e na adolescência, ele a ajudava a embalar as trufas. De tabela, observava o preparo.

O jovem desembarcou em Brasília há três anos vindo de Juruaia, município de Minas Gerais com 15 mil habitantes, onde conheceu Ana Laura. A cidade é chamada de “capital da lingerie” devido à grande produção de roupas íntimas. Mas, esse tipo de comércio jamais seduziu o rapaz, que desde a infância sonhava em desenvolver games. “Em Juruaia, ou você faz lingerie ou vende”, brinca.

 

Percalços
Guilherme chegou na capital da República para viver com a namorada e, desde então, o casal tem enfrentado arrocho financeiro. A fase mais dramática ocorreu em 2015, nos oito meses em que o rapaz ficou desempregado.

 

Naquele período, Ana Laura arcou sozinha com os gastos, graças ao estágio em um hospital oftalmológico na Asa Sul. “Uma vez recebi vale-alimentação, fizemos compras e escrevemos o que poderíamos comer em cada dia. Não podíamos comer mais que aquilo, caso contrário, faltaria dinheiro para outras coisas”, relembra. Ana Laura diz que o dinheiro do casal sempre foi contado.

 

“Já jantamos pipoca com suco, mas nunca passamos fome, porque priorizamos nosso sustento”, conta Ana Laura, que há um mês incrementa a renda com o trabalho em um estúdio de pilates.

Timidez
Quem vê a desenvoltura do jovem enquanto vende as trufas não imagina o obstáculo superado por ele para alcançá-la. A timidez do rapaz prejudicou as vendas nas primeiras semanas. Entretanto, a vontade de atingir seus objetivos falou mais alto e ele deu de ombros para a introspecção.

 

“Hoje, não tenho mais vergonha. Quando o motorista está com o vidro do carro fechado, faço um ‘joinha’ para abrir. Se já está aberto, eu me apresento e conto meu sonho, o porquê de vender as trufas”, afirma.

 

A descontração e a história do rapaz já abriram portas. Prova disso, é que vários motoristas, sensibilizados com a história de Guilherme, já lhe ofereceram oportunidade de trabalho. Mas, até hoje, ele tem recusado as propostas, para não atrapalhar os horários das aulas. Aprender é uma obstinação.

 

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